Assistia a tv me irritar quando o interfone tocou. Era meu pai, pedindo ajuda para trazer umas coisas do carro para cima. Desci até a portaria e descobri que eram as almofadas do sofá feio que chegara mais cedo. Ajeitei todas elas debaixo do braço e fiz o trabalho sozinho pois meu pai estava atrasado para alguma coisa.
Me virei para conseguir pegar a chave e abrir os portões. Meus dedos doíam e as almofadas estavam escorregando. Soltei todas elas no chão, para abrir o segundo portão com calma e depois reajeitá-las nos meus braços. Nesse momento, surgiu da esquina o zelador, que grunhiu:
– Num vai ficar deixando tralha aí!
Fiquei desconcertado, gaguejei alguma coisa e entrei.
Sempre fico nervoso quando recebo alguma chamada de atenção dessas do nada. Fico tentando me desculpar e me explicar. Logo depois me dou conta de que não tinha por que me desculpar.
Por que ele me deu essa bronca ao invés de me ajudar, ou pelo menos abrir a porta para mim, vendo que estou sem mão? Fiquei puto. O mais irritante é que já não era mais hora de pedir satisfações a ele. Pareceria idiota eu voltar atrás para responder. Me sinto totalmente impotente e sinto que saio perdendo por ficar tentando ser educado.
De qualquer maneira, esse sofá novo era novo só em casa mesmo. Estava acabado e com cheiro e furos de cigarro. Era de um amigo dos meus pais que estava de mudança e decidiu trocar todos os móveis. Decidimos por mandar ele pro atêlier do meu pai, ou pra sei lá onde, mas não gostamos dele e queríamos nos desfazer.
Íamos viajar dali a dois dias e acabamos adiando essa história. Nunca estive tão feliz por viajar para a casa da minha avó. Era no litoral, e a ideia de passar dias na praia sem aquelas neuroses dos meus amigos me animava. Estávamos brigando até pela pizza que comeríamos. A minha parcela de culpa nessas brigas é considerável, mas é por puro cansaço e tinha certeza de que um tempo fora faria bem a todos.
Esse meu sonho foi destruído não muito depois. Já na estrada, fui me dando conta do quanto estava me iludindo. Como se não fosse óbvio, me lembrei que a casa de praia é na verdade um apartamento na cidade, há uns quilômetros da praia. É barulhento e não tem calma nenhuma.
Quando cheguei, era noite de Natal, e dei a cara com mais algumas realidades. O “programa família” é, por vezes, infernal. Tensões muito antigas vem à tona, e vira uma discussão enorme em que alguém sai extremamente ofendido até o fim da estadia.
Além disso, o namorado/marido da minha prima é insuportável, e o fato dele chamar meu avô de “vovô” e ficar fotografando todo mundo me incomodava bastante. O vi umas duas vezes na minha vida.
Me conformei com os novos probleminhas e decidi relevá-los. Ia para a praia, passava por um tédio depois do almoço, jantava e jogava baralho. Todo santo dia. Estava bastante confortável e não reclamava.
Fui surpreendido por um amigo, que disse que perdeu a virgindade. Eu não soube como reagir à notícia, mas conclui que aquilo não deveria me incomodar e não precisava me preocupar. Mas grande droga concluir isso. Isso é o que meu pai me diz, a verdade é que fiquei muito tenso.
No último dia do ano, à tarde, jogávamos, um jogo de perguntas que minha irmã ganhara no Natal. Em algum momento, o assunto se tornou os casos da juventude do meu pai. Fazendo piada, ele disse que sua mãe era extremamente castradora e que não virou gay por um triz.
Minha avó é a mais convencional dona de casa que se possa imaginar, e aquilo machucou sua posição de mãe de forma violenta. Começou a gritar como jamais tinha visto e disse que tinha sido a melhor mãe do mundo e em nenhum momento vetou alguma menina na vida do meu pai. Minha tia colocou em prática sua mania de alimentar uma briga na hora errada, minha avó decidiu não falar mais e foi para o quarto.
Por alguma razão, meu pai não achou que deveria se explicar, pois era uma piada. Era extremamente aflitivo o fato de ele continuar sentado, sem perceber que tinha sido mal interpretado e que acabara ofendendo.
Alguns momentos depois, discutindo sobre o recente ocorrido, minha mãe, que nada tinha a ver com a história, colocou mágoas de brigas mais ou menos recentes com meu pai no meio da conversa:
–Você acaba com as pessoas.
Nem eu nem meu pai entedemos aquilo. De repente minha mãe virou vítima. Possesso, ele respondeu que se quisesse discutir a relação entre ele e minha mãe, faria isso perfeitamente, mas que estava misturando duas coisas distintas.
Minha mãe em brigas, acho que como proteção, simplesmente se fecha e para de ouvir totalmente. A resposta para tudo se torna determinado argumento. Eu havia brigado com a minha mãe mais cedo por coisas absolutamente banais, mas ela tomou essa mesma posição.
Me irritei de forma brutal decidi simplesmente desistir. Comecei a escrever com o pior garrancho do mundo em umas folhas que arranquei de uns livros velhos. Ouvi discos inteiros, toquei violão de forma imbecil. Sempre achei que esses ápices de raiva fossem muito criativos, a gente faz coisas de forma tão honesta, sem filtrar nada.
Não sei determinar quanto tempo se passou até meu avô entrar, mas anoitecera. Meu avô pode ter algumas opiniões um pouco antiquadas, mas, de modo geral, é bastante sensato. Disse que a minha avó já se recompusera, e que por culpa de um tratamento, suas irritações se tornam surtos, que só suavizam com um pouco de tempo. Meu pai foi à praia, como já planejava, mas tornara isso uma escapatória para acalmar.
–Filho, –disse meu avô –vai tomar um ar. Se quiser falar uns palavrões pode também.
Já estava com planos de dar uma volta pelo centro, e decidi seguir o primeiro conselho. Peguei minhas coisas e uns cigarros que estavam escondidos. Percebi que estava com fome e fui em direção da cozinha.
No caminho, na sala, estava minha mãe, chorando, aparentemente contando toda sua crise conjugal para minha tia. Cheguei à cozinha e comecei a preparar um leite, mas toda minha fúria retornara. Despejei todo o leite, quase propositalmente e voltei para a sala. Acabei seguindo o segundo conselho do meu avô, e nunca falei coisas de um jeito tão violento para minha mãe. Disse que estavam empurrando a separação há anos e que estavam sendo quase egoístas. Mas o que eu berrei mesmo foi uma sequência de palavrões para ninguém, como jeito de colocar aquilo tudo para fora. Soquei o chão até deslocar meu nervo e mais do que nunca estava decidido a sair.
Ironicamente, começou a cair uma chuva torrencial. Ignorei, peguei um guarda-chuva quebrado e saí.
Saindo do elevador, encontrei meu pai, encharcado. Perguntou aonde eu ia.
–Vou sair, sei lá. – choraminguei.
–O que você estava gritando? Eu ouvi.
–Nada, briguei com a minha mãe.
Ele suspirou:
–Não vai fazer besteira. Não vai ficar puto e ficar andando por aí de qualquer jeito. Presta atenção nos carros.
Saí, enfiei um cigarro na boca e comecei a andar rápido como o diabo, falando sozinho. Cheguei na praça principal, em frente à praia e me sentei em um banco de cimento molhado de frente para a avenida. Fiquei olhando aqueles hippies velhos desmontarem a feirinha e as pessoas começarem a se disperçar, a caminho de suas casas para comemorar o ano novo. Observei a avenida se esvaziar e voltei para casa. Fiz um caminho diferente da ida e passei em frente à igreja. Parei por um instante. Um padre gritava e todos cantavam. Sempre achei igreja muito estranho e aquilo começou a me perturbar. Segui para casa.
Estava sujo, com areia nas batatas da perna, e um pouco molhado. Quando entrei no apartamento, minha mãe pediu para eu tomar um banho e trocar de roupa, porque para a minha avó, esses jantares são muito importantes. Recusei e disse que estava limpo. Coloquei uma cadeira de plástico a trinta centímetros da televisão e comecei a procurar o programa mais idiota possível, para me distrair. Vi alguns trailers em um canal de filmes e algumas outras baboseiras durante mais ou menos meia hora, até minha avó pedir para eu colocar no show de fogos de outros países. Fiz a vontade da minha avó, mas saí da televisão.
Lavei meus pés. O resto dos parentes estavam chegando. No jantar, todos fingiram que nada tinha acontecido. Não que estivessem se desculpando ou perdoando, nem tentando diminuir o que tinha acontecido. Mas todos decidiram simplesmente não falar daquilo naquele momento.
No dia seguinte minha mãe decidiu voltar para São Paulo. Passei a me empenhar em coisas sem nenhuma importância, participava de qualquer coisa que alguém fosse fazer. Em um dia, fomos no final da tarde para a praia e me comportei como uma criança no mar, me divertia um absurdo. O mar era tão confortável. Ria da paranoia que me tomava pelo fato de meu amigo ter transado. Não estava dando a menor importância para nada do que tinha acontecido. De vez em quando alterno entre momentos extremamente maduros e responsáveis com outros ridiculamente infantis.
Começamos a ficar com vontade de voltar para São Paulo, como ficamos todo ano, depois de um tempo fora. Por outro lado, me preocupava o que ia acontecer quando chegássemos. Aquele sofá encardido talvez tivesse alguma função.
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