Estendida em um deserto negro; pés e mãos amarrados, esticados, retorcidos. À mercê da boa vontade alheia e anônima. Esperando algo e torcendo pelo eterno nada, a eterna falta de castigo.
Atordoada, percebo que algo se aproxima e logo reconheço minha própria Felicidade. Ela me encara devagar, me analisa desde os pés descalços e cheios de feridas até os olhos escuros miúdos molhados. É de uma magreza extrema, os ossos do maxilar saltam e dão contorno ao rosto desesperançoso – tão diferente do de outras Felicidades que vagam por aí. Estava pensativa e buscou com suas mãos finas e brancas alguma coisa, dentre suas diversas ferramentas, com a qual pudesse alcançar um rápido momento de diversão. Preparou tudo cuidadosamente, pois queria atingir sem erro o ponto desejado, e então, usando de sua fugacidade, mutilou-me pouco a pouco.
Terminada a operação, guardou cada retalho meu dentro de um grande saco negro, e levou-o para casa. Imaginei com nojo meus pedaços exibidos na sala de estar, onde bêbados riem celebrando a noite que não acaba nunca, enquanto minha dor - enorme e de contornos disformes, semelhante a um vulto, composta pela mistura perfeita entre o vermelho mais vivo, vinho, e um negro azulado – jaz exposta na prateleira. Pendurado por uma corda, meu sorriso, amarelo e tão pequeno que os convidados devem se aproximar muito para compreendê-lo, diverte quem acaba de chegar. No entanto, nem uma alma consegue tirar bom proveito e prazer da observação dos olhos. Os olhos. Miúdos e frustrados por tentarem a vida inteira se apropriar de uma certa qualidade que não lhes cabia: a de gritar. A de gritar a mais aguda pontada que lhes surgisse, que lhes cortasse, que lhes tirasse o sono. E então, por sempre gritarem sem som, sem resposta, pareciam dois animais eternamente enjaulados. E era tão trágico vê-los ali, prontos para atacar, mas sem poder atacar nunca, que nem o mais sombrio dos observadores conseguiria achar alguma graça na situação.
E enquanto meu cérebro se apagava, demasiado o tempo que passara desde que fora separado de seu todo, e a imaginação ficava cada vez mais turva, ainda fui capaz de compreender um último sussurro rouco que ecoava na sala.
Tem seres que simplesmente não nasceram para serem felizes. A eles resta apenas a crua beleza da angústia.
Atordoada, percebo que algo se aproxima e logo reconheço minha própria Felicidade. Ela me encara devagar, me analisa desde os pés descalços e cheios de feridas até os olhos escuros miúdos molhados. É de uma magreza extrema, os ossos do maxilar saltam e dão contorno ao rosto desesperançoso – tão diferente do de outras Felicidades que vagam por aí. Estava pensativa e buscou com suas mãos finas e brancas alguma coisa, dentre suas diversas ferramentas, com a qual pudesse alcançar um rápido momento de diversão. Preparou tudo cuidadosamente, pois queria atingir sem erro o ponto desejado, e então, usando de sua fugacidade, mutilou-me pouco a pouco.
Terminada a operação, guardou cada retalho meu dentro de um grande saco negro, e levou-o para casa. Imaginei com nojo meus pedaços exibidos na sala de estar, onde bêbados riem celebrando a noite que não acaba nunca, enquanto minha dor - enorme e de contornos disformes, semelhante a um vulto, composta pela mistura perfeita entre o vermelho mais vivo, vinho, e um negro azulado – jaz exposta na prateleira. Pendurado por uma corda, meu sorriso, amarelo e tão pequeno que os convidados devem se aproximar muito para compreendê-lo, diverte quem acaba de chegar. No entanto, nem uma alma consegue tirar bom proveito e prazer da observação dos olhos. Os olhos. Miúdos e frustrados por tentarem a vida inteira se apropriar de uma certa qualidade que não lhes cabia: a de gritar. A de gritar a mais aguda pontada que lhes surgisse, que lhes cortasse, que lhes tirasse o sono. E então, por sempre gritarem sem som, sem resposta, pareciam dois animais eternamente enjaulados. E era tão trágico vê-los ali, prontos para atacar, mas sem poder atacar nunca, que nem o mais sombrio dos observadores conseguiria achar alguma graça na situação.
E enquanto meu cérebro se apagava, demasiado o tempo que passara desde que fora separado de seu todo, e a imaginação ficava cada vez mais turva, ainda fui capaz de compreender um último sussurro rouco que ecoava na sala.
Tem seres que simplesmente não nasceram para serem felizes. A eles resta apenas a crua beleza da angústia.
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