terça-feira, 4 de maio de 2010

Três Graças


Levadas ao som de uma música latina, dançam todas com seus seios voluptuosamente nus, e seus micro orgãos masculinos. As Três Graças constroem uma corrente corporal nunca quebrada, a mais baixa no meio, e as duas outras nas pontas posam para uma foto ímpar. Nas mãos o de sempre, cada uma carrega uma maçã, sim tentadora, mas com exclusão desse sentido. O que é essencial nessas maçãs é o calafrio que dão no conjunto da imagem.



são seres extremamentes melancólicos.


tudo o que precisam; música latina, os sexos, três, e até maçãs.
Sei o que falta para serem completas: um pouco de mim.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

O homem, avariado, passava pela grande e frondosa árvore, sua mente em cacos, esperava, não objetivamente, de modo racional, mas simplesmente esperava... Esperava o tempo em que tudo acabaria, os outros, a árvore e seus inabitantes invisíveis, fantasmagóricos, espectrais, que naquela teia de vida se espalhavam pelos pontos variados, lânguidos, semprefustos, entendedorers da realidade em sí, sem castigo punicão, ou amor. A vida lhes oferecia uma única chance, aceita com todos os seus orgãos ativos inativos operan-inoperantes. Obcecado com tal complexidade universal se questionava sobre a tenebrosidade mental possível a ser levada a extremos inimagináveis, tal lux impossibilitava todo e qualquer contato com sua realidade, tornando-o, assim, um espectro, uma memória. Passando aos momentos seguintes. Flashes. Traços, quadriculados, cores, sons, intensidades, um palhaço se aproxima de toda sua não visibilidade cômica, contando contraditoriedades, assim como uma história contada por um palhaço, e tudo começava com uma queda de um avião, sem sobreviventes, por demasiado real, sendo, sem ações humanas, quase que apenas uma descrição, mas como ser uma descrição se havia uma sucessão de fatos que não alteravam em nada a sucessão da história, mas continuava com
os ventos soprando,      os dias passsaando, e ass luaass e sssoiiss, passssando mais vagarossamenteeeeeeee, sendo puxado   tudo   para   um   eterno   abismo,   que   eternamente   continuava   sendo   sugado,   mas   mantendo-se   parado.
Assim acorda o avariado, sem titulo sem nome, sem rótulo sem roupas, sem vergonha, sem nada mais, apenas sua consciência natural, passeando e vagando por uma cidade por demais cheia de pensamento para aconchegá-lo  com sua inconfortabilidade inconstante, sua pressão enclausurante, que fazia senti-lo próximo de seu fim, com paredes a comprimi-lo até restar um cubículo, e apenas um espaço virtualmente inconstante, para espia-lo de humanidade, de sua...  Enlaçado, pensava em fugir e caía no mesmo circuito interesseiro e mesquinho, viciando-o em torturas desentortadas para parecerem torturas, cansado, apoiava-se em sua sombra, expressava-se , predia-se, e e, com as mão sobre sua cabeça, nu novamente, corria, passando pelas imperialibarbaridades definidas aos filhos de deus...
Chega então, a uma ampla sala cromática, majoritemporariamente branca, mas eventualmente, em sua ausência muito barulhenta, encontra-se na boca de amigos, toda uma nação, perceptivelmente similar a ele, a batida da sala enfraquece-lhe a vista, transpondo seus sentidos longamente deixados para trás, sobrando apenas um rastro fosco azulado para relembra-lo o caminho de volta, e forçando sua mente a relembra-lo de onde estava, isto é... Na sala? Porque? seu cérebro se questionava, se não estou aqui, mas me sinto aqui, qual sua diferença? Portanto, deixou-se levar pelo som de palavras e suas emoções localizadas, suavidade, uma hora em que não se vê mais nada, sua própria situação, liquido, conteúdo de algo, de preferencia, não muito quente, não muito frio, "Eu gostaria de um café, garçom"
sentou-se, não muito, apenas o suficiente, apenas para sentir o preto da poltrona tocar-lhe as costas rígidas e enrugadas, como se secada ao sol por demasiado o tempo, seu amigo leão, sentou-se também, logo à sua frente, pensando o que pediria em seguida após o seu roast-bife, começaram a entravar uma longa conversa sobre porque o penguim haveria de se atrasar tanto e também o que levaria o guaxinim a chegar no momento adequado, ou seja, exatamente no momento em que foi mencionado, exatamente, sendo servida a sobremesa de sr. penguim, sorvete, que tanto o fazia lembrar sua terra natal,,, foi-se nosso companheiro, o intenso humano... Para mais uma passeada, despedindo-se cordialmente de seus companheiros saiu com seu bandolim rua afora, tocando só, só, alegremente, evitava ser dominado pela insanidade que corria a sua volta, toda aquela loucura que pirava as pessoas, o mundo tinha se tornado um hospício gigante, raciocinava ele, criando letras improvisadas sobre seu tempo preferido, o tema. As sombras o absorviam pouco a pouco, ele rolava em seus negrumes, faziam um balé, com uma música improvisada, meio sem jeito, mas muito preenchida por risadas benévolas, que quer que isso significasse, saíram a bailar subindo prédios, saíram a destruir toda possibilidade possível, alteraram todos os sentidos possíveis para a noção de espaço, encontrando-se apoiados quer no céu, quer nas nuvens, quer do avesso, ponta-cabeça, lateral, sobravoando levemente nos mais variados tempos, curvos, redundantes, ovais, circulares ou quadrados e simples, reencontrando-se uma infinidade de vezes para confabular canções e desejos futuros de um passado recente, sempre com suas sombras a segui-lo de perto, sussurrando em seus poros, evitando seu contato com a luminosidade do dia ensolarado com o céu já azul explorado e nuvens esbranquiçadas a rodear as sombras, juntando-se a uma dança inexplicável entre o preto, branco, e transparente, como o vidro. Seus materiais alteravam-se conforme suas próprias vontades, formando as mais diversas figuras, joopsus, hocuupses, liplirmi, interminus, sabiam tudo, eram agora oniscientes e de tudo haviam se afastado, perderam credibilidade, foram a algum lugar mais intenso e calmo, um espaço livre de tudo, ou nada, com isenção de poderes, alcançando a tão desejada igualdade inexistente, refletora de resquícios, falhas de sua perfeição final e, portanto, inibidora, "lhamblam" murmuravam, deixando de lado todo o resto, com um crânio aberto em seu centro, a fúnebre marcha mantinha seu ritmo cavalgar até o ápice de seus momentos, KABLAM, nada se alterou, KALAM, nada se manteve, SSZAS, tudo se reformulava, ia e vinha, tentando manter a temporalidade da velocidade tão justa e bela, até o ápice, até que no ápice... nada havia, pois não havia necessidade de um ápice para carniça, memórias, flutuando, dançando ao longo da trilha de aglomerado brancos e negros desprezívelmente dançantes, rastejando para um final, onde não havia um. Assim terminava a tentativa de obter coerência onde não deveria haver nenhuma, e vice-versa.
Risco, fluo em espiral, paredes da catedral,
mais uma,
breve, o instante arisco cria um risco,
Riscado, o disco rasgado, 
batido, voô relaxado, não se acrescenta piado.
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Pesa, levanta,
corpo eslânguido, te encanta,
ilusão, toda a alusão  a uma geração,
minha noção, esvaíndo, dá lugar à razão.
Toda a movimentação de uma nação não  santa,
espanta.
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Crio, no espaço, um passo,
no céu, um pincel,
onde na nuvem assumem
 seu verdadeiro tom pastel.
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Intensidade. Na nossa idade,
a responsabilidade pesa, mais e mais,
até esmagar nosso Crânio,
Aí está, e assim,
Vos apresento a verdadeira liberdade.
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Guincho,estalido,grito, 
esvoaçam, desmistificam
a névoa que se espalha 
na escuridão, pedindo perdão,
a perspectiva do patrão,
metamorfoseia e anseia,
a dor do trabalhador sonhador,
invoca uma troca,
que, pena no seno,
pela patriaMãe.
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Asfixia,
o ar se esvai,
enche-se a vida.
Some-se o foco,
infla o pensamento.
Cai, a acida
faca que te apunhala,
nos últimos momentos, repentinos.
Um dia, com sorte, volto a ter nuvens. Cumulus Nimbus, que sempre traziam a chuva que tanto anseava pra dentro de mim. Que se precipitaria, como é dito, da maneira que lavasse a alma, me relembrasse do branco-azul-céu da condição de cada espírito, desprovido de suas defesas, desnudo por inteiro. Amo, em mim, esse acaso de amar as nuvens.

Trivial

Não que seja trivial, mas tinha algum (ou quase todo) conteúdo. Rodava e arrastava sua prosa, máquina de amor, rico, da maneira rococó de se agradar aos entendedores de detalhes que somos. Parecia, no entanto, corriqueiro. Tão comum até mesmo quando quando fazia de tudo um amor-alarde, um caso de retalhação do todo, num tudo sem fim.

A Noite

 

Ao observar sua mão, banhada em um líqüido viscoso, mas, ao mesmo tempo, fugidio e gélido, causando uma sensação de desgosto á maioria das pessoas, além do calafrio, dos espasmos e da paralisia causada pelo choque, anteviu o que representaria tal líqüido, e previu, com certo desdém, o que significaria aquela situação, de início sentiu um terror quase cético inflamar-se e aninhar-se no fundo do que chamar-se-ia de coração em criaturas normais, era a primeira vez que sentia isso, apesar de não saber o nome. Ao acalmar-se observou janela afora e sua primeira visão: foi a do sorriso macabro da lua, sorrindo-lhe com grandes dentes brancos bem cuidados. Ao observar novamente os objetos resplandecentes, com seus olhos se acostumando á escuridão, concentra-se em um ponto esverdeado, fosforescente, e o reconhece como perfeito para aplacar sua cegueira, observa-o e abre-o um pouco "Como pensei" e a luz é regulada de acordo com sua vontade, e, por poucos milésimos sente-se como deus, controlando o nascer do sol (Seu único problema em sentir isso é que ele é ateu). Após seus lindos e agora, reluzentes, olhos cinzas, ofuscados pela luz e manchados de vermelho, observarem a cena antes impossível de ser observada a olho nu, eles tornam-se negros e, aparentemente, sua fisionomia torna-se mais velha e experiente, e ele sente um prazer sádico com essa cena. Observando o quarto de onde estava viam-se apenas paredes com traços de alguma coisa vermelha escorrendo gotas por gotas, por todos os lados, uma cama, atualmente, um braço pendente de algo que algum dia pode ser chamado de "mulher", poças da mesma substância já citada, marcas de pegadas, que lhe pareciam suas, tamanho 45, sola de borracha, relevo em uma figura abstrata parecida com um universo, e uma porta. Sua curiosidade já não poderia ser chamada de curiosidade, mas, sim de necessidade, e ao abrir a porta se em encontra em um banheiro, pequeno, mal cuidado, feito de ladrilhos, mas ele não presta atenção nestes detalhes, sua única visão está concentrada em um box no qual, sem pensar, tira sua roupa e prepara-se para tomar banho, e ao contrário do que previa, não aconteceu nenhuma invasão, refrescado, vestiu sua velha e ensangüentada capa, sua camisa, preta, sua cueca, calça, muito solta e confortável, suas meias e sapatos e começou a andar, impaciente, logo após, olhou pela janela uma segunda vez, não tinha noção do quanto o tempo havia passado, observou algumas árvores sem folhas, retorcidas, como se tentassem demonstrar seu estado espírito em tempos anteriores. Após algum tempo começou a retalhar, lenta e vagarosamente o corpo da pobre mulher (com sua faca levemente curvada ao final, com um rubi incrustado em seu cabo espiralado, também chamada de Main Gauche) que outrora fora tão bela, gentil e sedutora, e voltou á janela após se sentir satisfeito. Desta vez, a primeira coisa ao ver foi uma árvore exalando uma aura de cor inexplicavelmente bela e atemorizante, então entendeu que sentido havia sua vida, entendeu o porquê de estar ali, o que deveria fazer, o que deveria continuar, começar e esquecer.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

encruzilhada

Fomos pegos de surpresa: pisaram no nosso calo. Apontaram-nos o vasto e magro dedo e disseram:
- Ao sexo somente sobra a ciência e a poesia. Não brinquem aqui de trenzinho ou cavalinho de madeira. Ao sexo só sobra a literatura e a filosofia. Os sexos vestem grossa roupa e sentam em círculo; discutem. Ao final entram em consenso e descansam no chão.
Eles estão enganados.
Aqui não se faz ciência. Aqui não se faz poesia. Deixamos o nosso sexo nos dominar.
Suspiramos e gritamos, todos nós, pelo nosso sexo. Não temos nunca o que já tivemos.
Nada sabemos, de tudo falamos, porém. Aqui não se faz mágica e tampouco amor.
Demos nome a tudo para podermos trabalhar, mas, aviso aos ouvintes, nada delas importa.
Misturamos o movimento dos pássaros ao movimento dos sexos.


O primogênito


Assistia a tv me irritar quando o interfone tocou. Era meu pai, pedindo ajuda para trazer umas coisas do carro para cima. Desci até a portaria e descobri que eram as almofadas do sofá feio que chegara mais cedo. Ajeitei todas elas debaixo do braço e fiz o trabalho sozinho pois meu pai estava atrasado para alguma coisa.

Me virei para conseguir pegar a chave e abrir os portões. Meus dedos doíam e as almofadas estavam escorregando. Soltei todas elas no chão, para abrir o segundo portão com calma e depois reajeitá-las nos meus braços. Nesse momento, surgiu da esquina o zelador, que grunhiu:

– Num vai ficar deixando tralha aí!

Fiquei desconcertado, gaguejei alguma coisa e entrei.

Sempre fico nervoso quando recebo alguma chamada de atenção dessas do nada. Fico tentando me desculpar e me explicar. Logo depois me dou conta de que não tinha por que me desculpar.

Por que ele me deu essa bronca ao invés de me ajudar, ou pelo menos abrir a porta para mim, vendo que estou sem mão? Fiquei puto. O mais irritante é que já não era mais hora de pedir satisfações a ele. Pareceria idiota eu voltar atrás para responder. Me sinto totalmente impotente e sinto que saio perdendo por ficar tentando ser educado.

De qualquer maneira, esse sofá novo era novo só em casa mesmo. Estava acabado e com cheiro e furos de cigarro. Era de um amigo dos meus pais que estava de mudança e decidiu trocar todos os móveis. Decidimos por mandar ele pro atêlier do meu pai, ou pra sei lá onde, mas não gostamos dele e queríamos nos desfazer.

Íamos viajar dali a dois dias e acabamos adiando essa história. Nunca estive tão feliz por viajar para a casa da minha avó. Era no litoral, e a ideia de passar dias na praia sem aquelas neuroses dos meus amigos me animava. Estávamos brigando até pela pizza que comeríamos. A minha parcela de culpa nessas brigas é considerável, mas é por puro cansaço e tinha certeza de que um tempo fora faria bem a todos.

Esse meu sonho foi destruído não muito depois. Já na estrada, fui me dando conta do quanto estava me iludindo. Como se não fosse óbvio, me lembrei que a casa de praia é na verdade um apartamento na cidade, há uns quilômetros da praia. É barulhento e não tem calma nenhuma.

Quando cheguei, era noite de Natal, e dei a cara com mais algumas realidades. O “programa família” é, por vezes, infernal. Tensões muito antigas vem à tona, e vira uma discussão enorme em que alguém sai extremamente ofendido até o fim da estadia.

Além disso, o namorado/marido da minha prima é insuportável, e o fato dele chamar meu avô de “vovô” e ficar fotografando todo mundo me incomodava bastante. O vi umas duas vezes na minha vida.

Me conformei com os novos probleminhas e decidi relevá-los. Ia para a praia, passava por um tédio depois do almoço, jantava e jogava baralho. Todo santo dia. Estava bastante confortável e não reclamava.

Fui surpreendido por um amigo, que disse que perdeu a virgindade. Eu não soube como reagir à notícia, mas conclui que aquilo não deveria me incomodar e não precisava me preocupar. Mas grande droga concluir isso. Isso é o que meu pai me diz, a verdade é que fiquei muito tenso.

No último dia do ano, à tarde, jogávamos, um jogo de perguntas que minha irmã ganhara no Natal. Em algum momento, o assunto se tornou os casos da juventude do meu pai. Fazendo piada, ele disse que sua mãe era extremamente castradora e que não virou gay por um triz.

Minha avó é a mais convencional dona de casa que se possa imaginar, e aquilo machucou sua posição de mãe de forma violenta. Começou a gritar como jamais tinha visto e disse que tinha sido a melhor mãe do mundo e em nenhum momento vetou alguma menina na vida do meu pai. Minha tia colocou em prática sua mania de alimentar uma briga na hora errada, minha avó decidiu não falar mais e foi para o quarto.

Por alguma razão, meu pai não achou que deveria se explicar, pois era uma piada. Era extremamente aflitivo o fato de ele continuar sentado, sem perceber que tinha sido mal interpretado e que acabara ofendendo.

Alguns momentos depois, discutindo sobre o recente ocorrido, minha mãe, que nada tinha a ver com a história, colocou mágoas de brigas mais ou menos recentes com meu pai no meio da conversa:

–Você acaba com as pessoas.

Nem eu nem meu pai entedemos aquilo. De repente minha mãe virou vítima. Possesso, ele respondeu que se quisesse discutir a relação entre ele e minha mãe, faria isso perfeitamente, mas que estava misturando duas coisas distintas.

Minha mãe em brigas, acho que como proteção, simplesmente se fecha e para de ouvir totalmente. A resposta para tudo se torna determinado argumento. Eu havia brigado com a minha mãe mais cedo por coisas absolutamente banais, mas ela tomou essa mesma posição.

Me irritei de forma brutal decidi simplesmente desistir. Comecei a escrever com o pior garrancho do mundo em umas folhas que arranquei de uns livros velhos. Ouvi discos inteiros, toquei violão de forma imbecil. Sempre achei que esses ápices de raiva fossem muito criativos, a gente faz coisas de forma tão honesta, sem filtrar nada.

Não sei determinar quanto tempo se passou até meu avô entrar, mas anoitecera. Meu avô pode ter algumas opiniões um pouco antiquadas, mas, de modo geral, é bastante sensato. Disse que a minha avó já se recompusera, e que por culpa de um tratamento, suas irritações se tornam surtos, que só suavizam com um pouco de tempo. Meu pai foi à praia, como já planejava, mas tornara isso uma escapatória para acalmar.

–Filho, –disse meu avô –vai tomar um ar. Se quiser falar uns palavrões pode também.

Já estava com planos de dar uma volta pelo centro, e decidi seguir o primeiro conselho. Peguei minhas coisas e uns cigarros que estavam escondidos. Percebi que estava com fome e fui em direção da cozinha.

No caminho, na sala, estava minha mãe, chorando, aparentemente contando toda sua crise conjugal para minha tia. Cheguei à cozinha e comecei a preparar um leite, mas toda minha fúria retornara. Despejei todo o leite, quase propositalmente e voltei para a sala. Acabei seguindo o segundo conselho do meu avô, e nunca falei coisas de um jeito tão violento para minha mãe. Disse que estavam empurrando a separação há anos e que estavam sendo quase egoístas. Mas o que eu berrei mesmo foi uma sequência de palavrões para ninguém, como jeito de colocar aquilo tudo para fora. Soquei o chão até deslocar meu nervo e mais do que nunca estava decidido a sair.

Ironicamente, começou a cair uma chuva torrencial. Ignorei, peguei um guarda-chuva quebrado e saí.

Saindo do elevador, encontrei meu pai, encharcado. Perguntou aonde eu ia.

–Vou sair, sei lá. – choraminguei.

–O que você estava gritando? Eu ouvi.

–Nada, briguei com a minha mãe.

Ele suspirou:

–Não vai fazer besteira. Não vai ficar puto e ficar andando por aí de qualquer jeito. Presta atenção nos carros.

Saí, enfiei um cigarro na boca e comecei a andar rápido como o diabo, falando sozinho. Cheguei na praça principal, em frente à praia e me sentei em um banco de cimento molhado de frente para a avenida. Fiquei olhando aqueles hippies velhos desmontarem a feirinha e as pessoas começarem a se disperçar, a caminho de suas casas para comemorar o ano novo. Observei a avenida se esvaziar e voltei para casa. Fiz um caminho diferente da ida e passei em frente à igreja. Parei por um instante. Um padre gritava e todos cantavam. Sempre achei igreja muito estranho e aquilo começou a me perturbar. Segui para casa.

Estava sujo, com areia nas batatas da perna, e um pouco molhado. Quando entrei no apartamento, minha mãe pediu para eu tomar um banho e trocar de roupa, porque para a minha avó, esses jantares são muito importantes. Recusei e disse que estava limpo. Coloquei uma cadeira de plástico a trinta centímetros da televisão e comecei a procurar o programa mais idiota possível, para me distrair. Vi alguns trailers em um canal de filmes e algumas outras baboseiras durante mais ou menos meia hora, até minha avó pedir para eu colocar no show de fogos de outros países. Fiz a vontade da minha avó, mas saí da televisão.

Lavei meus pés. O resto dos parentes estavam chegando. No jantar, todos fingiram que nada tinha acontecido. Não que estivessem se desculpando ou perdoando, nem tentando diminuir o que tinha acontecido. Mas todos decidiram simplesmente não falar daquilo naquele momento.

No dia seguinte minha mãe decidiu voltar para São Paulo. Passei a me empenhar em coisas sem nenhuma importância, participava de qualquer coisa que alguém fosse fazer. Em um dia, fomos no final da tarde para a praia e me comportei como uma criança no mar, me divertia um absurdo. O mar era tão confortável. Ria da paranoia que me tomava pelo fato de meu amigo ter transado. Não estava dando a menor importância para nada do que tinha acontecido. De vez em quando alterno entre momentos extremamente maduros e responsáveis com outros ridiculamente infantis.

Começamos a ficar com vontade de voltar para São Paulo, como ficamos todo ano, depois de um tempo fora. Por outro lado, me preocupava o que ia acontecer quando chegássemos. Aquele sofá encardido talvez tivesse alguma função.



terça-feira, 27 de abril de 2010

Embreagados de felicidade
cambaliavam pelas ruas,
mostravam-se completos tolos
sentiam-se como reis.
Gritavam balbúrdias ao vento
implorando para serem ouvidos

Bailavam como se fosse o último baile
Beijavam como se fosse o último beijo
Sorriam como se fosse a última lasca de felicidade permanente

Porém choravam,
choravam como se tudo aquilo fosse acabar em questão de segundos.
E estavam certos.
tão certos que após um rodopio

A menina que tanto bailava,
que tanto beijava
que tanto sorria
Despertara de seu sonho
E nada mais existia
Pequenos seres glutões
Eu me sentindo um fracote
Sonhei com três pequenos anões
Todos seguravam chicotes
Besuntados num óleo verde barato
Todos derramavam escarro
Suguvam o rubro da tortura de minhas costas
Eram pequenos anões poliglotas
Seres infernais de outro mundo
Me penam na Terra, de modo obscuro
E os amo sem escrupulos
Pois por serem tão feios
Por um deles ter quebrado os seios
Por outro uma perna ter arremeios
A paixão pela humanidade desses anões universais
Surge primeiro no centro por serem seres boçais
E isso se exterioriza aos poucos, e quando me dou, estou completamente apaixonado pelos celerados.

Fragmentos de Delirio

Do deleite da menina ruiva e meiga, que, após adoecer, virou deliro. Era o jeito como ela pensava que estava errado. Não. Era apenas diferente. Tropeçava nas palavras e as repetia, enquanto em sua longa cabeleira cobre os peixes nadavam e assoviavam uma canção tão lenta quanto os seus nados. E dava nota: “mas aí eu...” ela murmurava. Perninhas tão frágeis que se quebrariam ao vento leve. Pés para dentro, dedão com dedão, onde se entrelaçavam as pontas enroladas. Uma boca grossa fazia parte de sua constituição do rosto que continham um nariz pontiagudo, um olho verde e outro azul, com cílios coloridos e sobrancelhas tão finas, mas tão finas e vermelhas.

Naquele dia acordou realizada, com tantas palavras na boca para serem contadas. Saltitante, pulou da cama e foi atropelando-as. Angústia. Ouviu a mãe aos prantos pela mãe. E ela, logo, aos prantos pela avó. As palavras foram engolidas onde as letras “a”, “e” e “i” com o auxílio de algumas consoantes, formavam uma frase sem sentido, como a morte (para ela). Era tão doce e inocente de criança. E agora queria ser tripé, onde esconderia o viver, numa instabilidade segura. A avó morreu de cabeça afundada. Também, com aquele pensamento pequeno de gente velha e reacionária. A imagem era de uma pessoa de braços magros e pelancudos arroxeados em alguns pontos veiosos. No lugar do pescoço uma vala profunda até o estomago que acabava num nariz manchado pela idade e boca da mesma cor da pele. Olhos esbugalhados saltantes pulsavam com o coração. Sim, a velha estava viva. Porém, naquela época, quando o indivíduo morria de “cabeça afundada” era considerado morto, já que só podiam olhar para frente e alto. Faziam com o corpo uma espécie de urna vulcaniformica. Com madeira velha e pó, tomavam forma do corpo e o fechavam, porém, antes, a menina olhou fundo na vala dessa avó e levou no rosto delicado, um cuspe negro, deu um salto para trás e fez um gemido acompanhado de uma careta desconfortável: “Saia da frente, não vê que alcancei o que pouquíssimos conseguem?! Deixe-me contemplar o infinito antes de me tamparem com areia e terra.” Delírio chorou lágrimas azedas e correu para a mãe. Quando começaram a cobrir a velha, saía da boca fina revelações e palavras que Delírio jamais ouvira. Os lutos passaram e nesses dias de vento, de uma cabeça vazia de idéias, a menina encontrava com o vulcão de murmúrios abafados e despejava pétalas em sua superfície. Pétalas negras como o cuspe que havia levado na cara. De raiva. De bondade. Não sabia. Quando finalmente esqueceu-se da amarga velha de razão, afundou seu rosto numa cama de cobre descascado e criou uma canção junto com os peixes que nadavam em sua cabeleira. Adoeceu lá mesmo, e a transição ao conhecido deleite acontecera de novo.

No quarto amarelo de cores frescas, eu deitado na minha cama de medicina, cantava as palavras: “Eu tenho duas línguas. Numa delas estou eu, na outra, estou eu.” A não compreensão dos outros no quarto não me afetava, apenas defenderia minha certeza. Nas paredes, colas e papel, formadores de uma película tão fina que se acumulava nas esquinas do chão quando já mortas pelo tempo. Essa textura enrolada, branca de um cheiro muito peculiar, me trazia lembranças desse mesmo quarto. Quando tudo era luz. No canto de meu olho, uma poltrona. Toda veludo laranja, com sulcos imensos na vertical, manchada de óleos. Todas as janelas fechadas.

No chão, num papel amarelo-escuro, definitivamente, minha ultima obra: No centro, uma coluna de ferro que exibia em seus braços industriais diferentes cortes de carne, essa vida sem vida num plano frontal muito aparente. Já aos redores, tudo num preenchimento carnal, também se exibiam, só que numa tentativa bem mais falha, essas colunas de ferro. E no canto direito, abaixo, nesse papelão grosseiro, um carniceiro excêntrico sem mente que separa numa linha extremamente fina, que nem uma lâmina finíssima a separaria, o açougue do abate.

O espelho que me trouxeram do banheiro, agora em minhas mãos, apontava seu reflexo diretamente em meu rosto transfigurado e me comia a imagem, num roubo sem controle, e me assustei quando me vi. Por mais que nos conheçamos (ou pensemos isso) o impacto, por mais que imperceptível, de um reflexo, é presente. Depositamos num contrário tudo aquilo que somos confiando no espelho. Confiamos naquilo que obtemos? As bordas dessa moldura eram velhas e carcomidas, de madeira real, com cor azul-clara gasta. Em seu centro, místico era aquele reflexo, que eu, após ser obrigado a revelar meu íntimo, me dava minhas duas línguas. “Você não tem línguas, tem apenas uma” falava-me a voz da clara certeza. “Tenho” respondia eu, já sem esperanças, quando num aperto mentiroso eu estava.

Sentia minha boca lotada com dois corpos quentes, que mexiam e remexiam-se numa tentativa de acomodação impossível. Como dois sólidos tão distintos, porém representantes justamente da separação de um mesmo ser, não conseguem uma harmonia espacial? Agora, nesse período de vento na cabeça, estava tenso e pálido, e o medo invadira-me. O espelho ainda em minha mãos, apontando no meu rosto, e a ultima frase: “Ponha a língua para fora, e provarei aos seus olhos sãos que essa segunda língua não é mais do que um simples imaginar.” No instante seguinte, puxei para fora lentamente, o único bloco amolecido, que pendeu, cansado, praticamente derrotado. Respondi: “Não vê?! Aí estão elas.

Mesmo assim, mesmo depois de todas as tentativas falhas de manter esse bem dentro da minha boca, quem diria, justamente essa segunda língua, tão mal interpretada, como a bíblia, fluiria para fora de meu corpo, como um liquido pesado e negro, e no espaço, simultaneamente no seu vazar, entraria a angústia e um descobrir como uma pancada. Ela fora arrancada tão brutalmente de mim, assim como algumas palavras e construções. Havia o racional.

as duas
Estendida em um deserto negro; pés e mãos amarrados, esticados, retorcidos. À mercê da boa vontade alheia e anônima. Esperando algo e torcendo pelo eterno nada, a eterna falta de castigo.
Atordoada, percebo que algo se aproxima e logo reconheço minha própria Felicidade. Ela me encara devagar, me analisa desde os pés descalços e cheios de feridas até os olhos escuros miúdos molhados. É de uma magreza extrema, os ossos do maxilar saltam e dão contorno ao rosto desesperançoso – tão diferente do de outras Felicidades que vagam por aí. Estava pensativa e buscou com suas mãos finas e brancas alguma coisa, dentre suas diversas ferramentas, com a qual pudesse alcançar um rápido momento de diversão. Preparou tudo cuidadosamente, pois queria atingir sem erro o ponto desejado, e então, usando de sua fugacidade, mutilou-me pouco a pouco.
Terminada a operação, guardou cada retalho meu dentro de um grande saco negro, e levou-o para casa. Imaginei com nojo meus pedaços exibidos na sala de estar, onde bêbados riem celebrando a noite que não acaba nunca, enquanto minha dor - enorme e de contornos disformes, semelhante a um vulto, composta pela mistura perfeita entre o vermelho mais vivo, vinho, e um negro azulado – jaz exposta na prateleira. Pendurado por uma corda, meu sorriso, amarelo e tão pequeno que os convidados devem se aproximar muito para compreendê-lo, diverte quem acaba de chegar. No entanto, nem uma alma consegue tirar bom proveito e prazer da observação dos olhos. Os olhos. Miúdos e frustrados por tentarem a vida inteira se apropriar de uma certa qualidade que não lhes cabia: a de gritar. A de gritar a mais aguda pontada que lhes surgisse, que lhes cortasse, que lhes tirasse o sono. E então, por sempre gritarem sem som, sem resposta, pareciam dois animais eternamente enjaulados. E era tão trágico vê-los ali, prontos para atacar, mas sem poder atacar nunca, que nem o mais sombrio dos observadores conseguiria achar alguma graça na situação.
E enquanto meu cérebro se apagava, demasiado o tempo que passara desde que fora separado de seu todo, e a imaginação ficava cada vez mais turva, ainda fui capaz de compreender um último sussurro rouco que ecoava na sala.
Tem seres que simplesmente não nasceram para serem felizes. A eles resta apenas a crua beleza da angústia.

Retalhos

Quando escorregou e caiu já se sentia um babaca
desde o começo que entrou no mundo
podia ver tudo, ou quase nada
na verdade, era cego
não completamente cego
tinha dias que acordava vendo tudo
gritava: "oh my go!"
"oh my fucking dear god!"
"fuck me Alex, fuck me!"
"you have to turn me on, dead man"


***

No centro daquela fenda, um prazer
um tanto quando obscuro
mas tudo muito claro
tudo imutável, inflexivel
estável, por isso, falso
o morno e sóbrio trilhar
foi calmo
a situação não havia sido problemática, afinal
havia sido apenas racional

***

Consumi toda sorte
em copos virados sem engasgar
o líquido lhe decia como um suspiro
sentia a conexão, percebia o complexo prazer
dava o corpo duro, numa resignação
os músculos, como uma pedra
se excitaram
mas preferiam não se tocar
era um contrato de azar.

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Era grande e verde
já meio receoso, furtiguei-o
com tapinhas no papo
risadas para todo o lado
tímidas
como crianças
tudo apontava : "a natureza é...
é nada mias que grande
e verde

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Falando espanhol como identidade nacional
estampado um bigode mexicano
a navalha estava afiada
e o homem gritava asneiras
jogadas no ar como um nada
como assim?
como mais nada vai partir

***

Os chinelos azuis estavam molhados
assim, salgados
os seios com gosto de mar
que na imensidão de seu desejo imenso
que de tão infinito era quase igual ao vazio
mas chegou ao fim

***

Será que serei capaz de voar?
provavelmente não
quem sabe?
eu não sei
... depois descubro
quem diria que seria tão difícil
só dor, de parto de luz
e de escuro também
consumo de todo
toda a voz

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E foram passando, a seguir seu alvo
cantou a mais vazia canção
cantou a silêncio, e assim ficou
uma canção sem sim, sem harmonia, sem rítmo
sequer começava
acabava de entender o mundo
no segundo em que acenei pelos ombros

***

O pessoal na multidão
subi a cabeça para respirar
respirei tudo que podia,
pois era certo
que logo mais faltaria ar
decerto - deserto- faltou
faltou escrúpulos para destinguir o caminho
escolhi a direita
sabia que havia de procurar um sentido
quando finalmente o achou
deixou de lado e dormiu
em seu infinito particular

***

Os pés descalços tateavam o chão
trote dos cavalos, meu pés
barulhentos, sem sessar
contínuo, turbulento
como ondas a ir e voltar
via, a sua volta, o mundo
num tormento imenso
laço entre a morte
a cada dia mais perto
do final.

***

A cadeira vermelha na casa vermelha
cempletamente suja de sangue
satisfeita. fazia, ao ver, uma imagem doentia
lembrava sua mãe
e de longe seu cachorro
três patas só. Muita sarna
trinta e duas pintas
dezesseis pretas
e pouquíssima que diferiam a cor.

***

Parem todos de chorar pelos cantos!
os cantos já estão alagados
batia os pés na água que me cercava
fazia uma meleca
sentia que seu movimento havia sincronizado com o resto
e agora atingira o sublime
queria dizer mas não podia
estão não disse nada e chorou baixinho pelos cantos.

***

Tirando isso, tudo bem
estava calmo, mas esse pequeno particular
ainda me preocupava
era como o rabo do problema
quente e latejante, que ia e voltava
minha mãe gostava
pulsava o sentido maternal
que via na mulher que me criou
na progenitora
meu sexo refletia e o desejo
Ah! o desejo.
subia por minha pernas
mas tirando isso, tudo bem.

***

Havia sempre o seu próprio pensamento
vago e ilinear, confuso de tanto
conselho, lento tormento
um cutucão
odeio que me encostem
te sugeram alguma coisa?
não te leva a nada
nunca mias, nada mais.

***

Não saberia ser uma mulher
os olhares mal entendidos
que incompreendidos, decidem não se olhar
quebram o gelo.
Uma porrada forte
a barriga amassou, o bebê morreu.
mas não houve dor
pois a dor não é nada mais do que crescer.

***

Chamava em tormenta.
Gritava meu nome entre seus suspiros
meu nome não era digno disso
sequer eu mesmo valia isso
valia apenas minhas aulas
a cada dia mais densas
tendendo para um lado
um pouquinho mais do que para o outro
não havia mais o que dizer
apenas empurar toda a água para o ralo.