No quarto amarelo de cores frescas, eu deitado na minha cama de medicina, cantava as palavras: “Eu tenho duas línguas. Numa delas estou eu, na outra, estou eu.” A não compreensão dos outros no quarto não me afetava, apenas defenderia minha certeza. Nas paredes, colas e papel, formadores de uma película tão fina que se acumulava nas esquinas do chão quando já mortas pelo tempo. Essa textura enrolada, branca de um cheiro muito peculiar, me trazia lembranças desse mesmo quarto. Quando tudo era luz. No canto de meu olho, uma poltrona. Toda veludo laranja, com sulcos imensos na vertical, manchada de óleos. Todas as janelas fechadas.
No chão, num papel amarelo-escuro, definitivamente, minha ultima obra: No centro, uma coluna de ferro que exibia em seus braços industriais diferentes cortes de carne, essa vida sem vida num plano frontal muito aparente. Já aos redores, tudo num preenchimento carnal, também se exibiam, só que numa tentativa bem mais falha, essas colunas de ferro. E no canto direito, abaixo, nesse papelão grosseiro, um carniceiro excêntrico sem mente que separa numa linha extremamente fina, que nem uma lâmina finíssima a separaria, o açougue do abate.
O espelho que me trouxeram do banheiro, agora em minhas mãos, apontava seu reflexo diretamente em meu rosto transfigurado e me comia a imagem, num roubo sem controle, e me assustei quando me vi. Por mais que nos conheçamos (ou pensemos isso) o impacto, por mais que imperceptível, de um reflexo, é presente. Depositamos num contrário tudo aquilo que somos confiando no espelho. Confiamos naquilo que obtemos? As bordas dessa moldura eram velhas e carcomidas, de madeira real, com cor azul-clara gasta. Em seu centro, místico era aquele reflexo, que eu, após ser obrigado a revelar meu íntimo, me dava minhas duas línguas. “Você não tem línguas, tem apenas uma” falava-me a voz da clara certeza. “Tenho” respondia eu, já sem esperanças, quando num aperto mentiroso eu estava.
Sentia minha boca lotada com dois corpos quentes, que mexiam e remexiam-se numa tentativa de acomodação impossível. Como dois sólidos tão distintos, porém representantes justamente da separação de um mesmo ser, não conseguem uma harmonia espacial? Agora, nesse período de vento na cabeça, estava tenso e pálido, e o medo invadira-me. O espelho ainda em minha mãos, apontando no meu rosto, e a ultima frase: “Ponha a língua para fora, e provarei aos seus olhos sãos que essa segunda língua não é mais do que um simples imaginar.” No instante seguinte, puxei para fora lentamente, o único bloco amolecido, que pendeu, cansado, praticamente derrotado. Respondi: “Não vê?! Aí estão elas.
Mesmo assim, mesmo depois de todas as tentativas falhas de manter esse bem dentro da minha boca, quem diria, justamente essa segunda língua, tão mal interpretada, como a bíblia, fluiria para fora de meu corpo, como um liquido pesado e negro, e no espaço, simultaneamente no seu vazar, entraria a angústia e um descobrir como uma pancada. Ela fora arrancada tão brutalmente de mim, assim como algumas palavras e construções. Havia o racional.
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