Do deleite da menina ruiva e meiga, que, após adoecer, virou deliro. Era o jeito como ela pensava que estava errado. Não. Era apenas diferente. Tropeçava nas palavras e as repetia, enquanto em sua longa cabeleira cobre os peixes nadavam e assoviavam uma canção tão lenta quanto os seus nados. E dava nota: “mas aí eu...” ela murmurava. Perninhas tão frágeis que se quebrariam ao vento leve. Pés para dentro, dedão com dedão, onde se entrelaçavam as pontas enroladas. Uma boca grossa fazia parte de sua constituição do rosto que continham um nariz pontiagudo, um olho verde e outro azul, com cílios coloridos e sobrancelhas tão finas, mas tão finas e vermelhas.
Naquele dia acordou realizada, com tantas palavras na boca para serem contadas. Saltitante, pulou da cama e foi atropelando-as. Angústia. Ouviu a mãe aos prantos pela mãe. E ela, logo, aos prantos pela avó. As palavras foram engolidas onde as letras “a”, “e” e “i” com o auxílio de algumas consoantes, formavam uma frase sem sentido, como a morte (para ela). Era tão doce e inocente de criança. E agora queria ser tripé, onde esconderia o viver, numa instabilidade segura. A avó morreu de cabeça afundada. Também, com aquele pensamento pequeno de gente velha e reacionária. A imagem era de uma pessoa de braços magros e pelancudos arroxeados em alguns pontos veiosos. No lugar do pescoço uma vala profunda até o estomago que acabava num nariz manchado pela idade e boca da mesma cor da pele. Olhos esbugalhados saltantes pulsavam com o coração. Sim, a velha estava viva. Porém, naquela época, quando o indivíduo morria de “cabeça afundada” era considerado morto, já que só podiam olhar para frente e alto. Faziam com o corpo uma espécie de urna vulcaniformica. Com madeira velha e pó, tomavam forma do corpo e o fechavam, porém, antes, a menina olhou fundo na vala dessa avó e levou no rosto delicado, um cuspe negro, deu um salto para trás e fez um gemido acompanhado de uma careta desconfortável: “Saia da frente, não vê que alcancei o que pouquíssimos conseguem?! Deixe-me contemplar o infinito antes de me tamparem com areia e terra.” Delírio chorou lágrimas azedas e correu para a mãe. Quando começaram a cobrir a velha, saía da boca fina revelações e palavras que Delírio jamais ouvira. Os lutos passaram e nesses dias de vento, de uma cabeça vazia de idéias, a menina encontrava com o vulcão de murmúrios abafados e despejava pétalas em sua superfície. Pétalas negras como o cuspe que havia levado na cara. De raiva. De bondade. Não sabia. Quando finalmente esqueceu-se da amarga velha de razão, afundou seu rosto numa cama de cobre descascado e criou uma canção junto com os peixes que nadavam em sua cabeleira. Adoeceu lá mesmo, e a transição ao conhecido deleite acontecera de novo.
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