quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Noite

 

Ao observar sua mão, banhada em um líqüido viscoso, mas, ao mesmo tempo, fugidio e gélido, causando uma sensação de desgosto á maioria das pessoas, além do calafrio, dos espasmos e da paralisia causada pelo choque, anteviu o que representaria tal líqüido, e previu, com certo desdém, o que significaria aquela situação, de início sentiu um terror quase cético inflamar-se e aninhar-se no fundo do que chamar-se-ia de coração em criaturas normais, era a primeira vez que sentia isso, apesar de não saber o nome. Ao acalmar-se observou janela afora e sua primeira visão: foi a do sorriso macabro da lua, sorrindo-lhe com grandes dentes brancos bem cuidados. Ao observar novamente os objetos resplandecentes, com seus olhos se acostumando á escuridão, concentra-se em um ponto esverdeado, fosforescente, e o reconhece como perfeito para aplacar sua cegueira, observa-o e abre-o um pouco "Como pensei" e a luz é regulada de acordo com sua vontade, e, por poucos milésimos sente-se como deus, controlando o nascer do sol (Seu único problema em sentir isso é que ele é ateu). Após seus lindos e agora, reluzentes, olhos cinzas, ofuscados pela luz e manchados de vermelho, observarem a cena antes impossível de ser observada a olho nu, eles tornam-se negros e, aparentemente, sua fisionomia torna-se mais velha e experiente, e ele sente um prazer sádico com essa cena. Observando o quarto de onde estava viam-se apenas paredes com traços de alguma coisa vermelha escorrendo gotas por gotas, por todos os lados, uma cama, atualmente, um braço pendente de algo que algum dia pode ser chamado de "mulher", poças da mesma substância já citada, marcas de pegadas, que lhe pareciam suas, tamanho 45, sola de borracha, relevo em uma figura abstrata parecida com um universo, e uma porta. Sua curiosidade já não poderia ser chamada de curiosidade, mas, sim de necessidade, e ao abrir a porta se em encontra em um banheiro, pequeno, mal cuidado, feito de ladrilhos, mas ele não presta atenção nestes detalhes, sua única visão está concentrada em um box no qual, sem pensar, tira sua roupa e prepara-se para tomar banho, e ao contrário do que previa, não aconteceu nenhuma invasão, refrescado, vestiu sua velha e ensangüentada capa, sua camisa, preta, sua cueca, calça, muito solta e confortável, suas meias e sapatos e começou a andar, impaciente, logo após, olhou pela janela uma segunda vez, não tinha noção do quanto o tempo havia passado, observou algumas árvores sem folhas, retorcidas, como se tentassem demonstrar seu estado espírito em tempos anteriores. Após algum tempo começou a retalhar, lenta e vagarosamente o corpo da pobre mulher (com sua faca levemente curvada ao final, com um rubi incrustado em seu cabo espiralado, também chamada de Main Gauche) que outrora fora tão bela, gentil e sedutora, e voltou á janela após se sentir satisfeito. Desta vez, a primeira coisa ao ver foi uma árvore exalando uma aura de cor inexplicavelmente bela e atemorizante, então entendeu que sentido havia sua vida, entendeu o porquê de estar ali, o que deveria fazer, o que deveria continuar, começar e esquecer.

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